Quando Karl Marx escreveu em 1844 «A religião é o ópio do povo», ainda não havia o futebol-espectáculo dos dias de hoje.
Terá o comércio do futebol o efeito nefasto que a religião tem sobre a humanidade? Penso que não, porque a religião procura anestesiar os injustiçados prometendo-lhes justiça noutro mundo, noutras paragens, através da lavagem do cérebro das crianças e de uma sórdida vigarice baseada em lendas e fábulas. A religião promete a vida eterna aos que bem se comportarem nesta, ou seja, aos que se não revoltarem contra os poderosos, e ainda ao João César das Neves.
Mas deveremos interrogarmo-nos sobre o porquê da constante colagem dos políticos ao fenómeno “futeboleiro”.
Os políticos sempre se procuraram associar aos gostos irracionais dos eleitores desde que sejam inócuos para as suas ambições e desde que os desviem dos problemas que supostamente aqueles se propõem resolver.
Recordemos Cavaco na eleição presidencial de 1995, «Eu sou católico», tentando aproveitar as superstições populares contra Sampaio. Infelizmente para Cavaco a religião já não lhe dá assim tantos votos porque a sociedade está mais laica e tolerante.
Daí que ultimamente se tenha tornado moda a assumpção do futebol entre os que pretendem o voto popular. É vê-los nos estádios, de sorriso largo a responderem com gosto aos entrevistadores sobre as suas paixões clubísticas.
Alguns até se dão ao luxo de se tornarem comentadores na comunicação social em representação do respectivo emblema, o que além da popularidade lhes granjeia um complemento salarial para que possam evitar as agruras da carestia da vida, para poderem ir ao talho sem andarem a contar os tostões. Fernando Seara até engordou.
Num país cada vez mais sombrio e miserável, vendem-se três jornais desportivos diários com tiragens muito superiores às dos outros, há programas e canais de TV, de grande audiência, especializados na discussão dos problemas dos três maiores clubes. Os noticiários da rádio e TV abrem muitas vezes com notícias sobre os jogos de futebol.
As pessoas com vida mais difícil utilizam grande parte do seu tempo a discutir as vantagens do seu clube face ao clube rival. E que grande orgulho e alegria quando acontece a vitória!
E apesar de todo este alarido em redor do espéctaculo futebolístico, a taxa de praticantes desportivos é muito baixa.
Falar de política? Para quê? São todos uns aldrabões que só querem é tacho!
Viver a própria vida, procurar a realização pessoal? Como, se o dinheiro apenas dá, e mal, para as necessidades básicas de uma vida sempre igual e repetitiva com longas horas na deslocação casa/trabalho?
O melhor é aproveitar o pouco tempo disponível para coisas mais simples como o futebol e a telenovela. Afinal um jornal desportivo até é barato e traz a provável constituição da equipa para o próximo jogo. A telenovela vê-se em casa e, no episódio seguinte, mais alguma heroína, da classe média/alta minoritária brasileira, aparecerá grávida.
Mas a população até é bastante patriota, como o comprovou Marcelo Rebelo de Sousa com o eco que o seu apelo para a colocação da bandeira nacional na janela teve, quando do Campeonato Europeu de Futebol.
Todo este entusiasmo foi bem entendido pelos Governos da Nação com o investimento nas infra-estruturas. Os oito novos templos de futebol são o orgulho do país e dos construtores civis. Foi melhor do que construir escolas ou hospitais porque já existem demasiados e são deprimentes.
Claro que os custos de manutenção destes templos são muito elevados. O estádio do Algarve, por exemplo, custa três mil contos só para abrir as portas para um jogo da III divisão nacional e já se encontra em processo de degradação por falta de manutenção. No entanto o actual Governo está atento. A redução dos custos com o funcionalismo público permitirá aquela manutenção por alguns anos.
Os construtores civis e outros empresários da nossa praça, que vivem com dificuldade do trabalho alheio, muitas vezes de emigrantes ilegais que felizmente lhes fazem um desconto bastante razoável no salário como forma de agradecimento pela não denúncia, sempre que podem tornam-se presidentes de clubes de futebol para assim poderem ser reconhecidos socialmente e ficarem com a vida mais facilitada no futuro.
O futebol que, até há uns poucos anos, era quase exclusivo da população masculina, saltou essa barreira e tornou-se vulgar também entre as mulheres.
Agora foi a vez da Chanceller da Alemanha, Angela Merkel, afirmar «Sou uma grande fã do futebol».
O povo alemão ficou ciente que a democrata-cristã, chefe do governo e apóstola da desigualdade social, é um deles e está com eles porque também gosta de futebol.